Esta palestra abriu a
série "Mini-Colóquios de
Graduação", organizada pela Comissão de
Graduação, e coordenada pelo Prof. Raphael Liguori
Neto, a quem agradeço pela oportunidade de falar aos
estudantes.
A linguagem da ciência
A frase que serve de título a esta palestra é uma
livre interpretação do seguinte parágrafo de
"Il Saggiatore":
La filosofia è scritta in questo grandissimo libro che
continuamente ci sta aperto innanzi a gli occhi (io dico
l'universo), ma non si può intendere se prima non
s'impara a intender la lingua, e conoscer i caratteri,
ne' quali è scritto. Egli è scritto in lingua
matematica, e i caratteri sono triangoli, cerchi, ed altre figure
geometriche, senza i quali mezzi è impossibile a
intenderne umanamente parola; senza questi è um aggirarsi
vanamente per un'oscuro laberinto.
Uma tradução improvisada : A filosofia (isto
é, a ciência) está escrita neste
grandíssimo livro que, continuamente, está aberto
diante de nosso olhos (eu quero dizer o universo), mas que
não se pode entender se não se aprende a entender a
língua, e a conhecer os caracteres, nos quais está
escrito. Ele é escrito em língua matemática,
e os caracteres são os triângulos, círculos,
e outras figuras geométricas, sem cujos meios é
humanamente impossível entender uma só palavra; sem
esses é um vão caminhar por um obscuro
labirinto.
Neste texto Galileu não está defendendo a primazia
da física matemática, dentre as várias
modalidades de física que se cultivam hoje em dia. Nem
faria sentido: naquela época física era uma coisa
só. A tese de Galileu é que a linguagem
bíblica não se presta a uma
descrição da ciência, e, por isso, as
Escrituras devem, no que concerne a ciência, ser
interpretadas como uma alegoria, um poema sobre a natureza.
Ninguém pensaria em procurar na Bíblia argumentos
sobre a validade do teorema de Pitágoras. Galileu pede que
isto seja estendido também às leis da natureza.
Muito séculos depois, outro grande escritor italiano,
Primo Levi, maravilhou-se quando, estudante
recém-ingressado no Instituto de Química da
Universidade de Turim, ouviu o professor expressar-se em uma
"linguagem essencial", um alívio, nas salas de
aula, num país dominado pela retórica
demagógica do fascismo. Era de novo a linguagem da
ciência opondo-se a uma linguagem oficial inadequada.
Um terceiro exemplo de linguagem inapropriada para a
ciência vem-nos de Richard Feynman. Sempre achei que uma
das maiores invenções de Feynman foi o seu pai,
Melvin Feynman, didata extraordinário a ponto de ser
dificil aceitar que um homem de educação formal
escassa tivesse tanta sabedoria no campo da ciência.
Sabedoria, não erudição. (Naturalmente isto
também se diz de Shakespeare: que um homem com a sua
(falta de) educação não poderia ter escrito
coisas tão extraordinárias. No entanto, escreveu!).
Alguns exemplos, tirados do livro "What do you care what
other people think?":
We had the Encyclopaedia Britannica
at home. When I was a small boy he used to sit me on his lap and
read to me from the Britannica. We would be reading, say,
about dinosaurs. It would be talking about the Tyrannosaurus
rex, and it would say something like, "This dinosaur is
twenty-five feet high and its head is six feet
across."
My father would stop reading and say,
"Now, let's see what that means. That would mean that if
he stood in our front yard, he would be tall enough to put his
head through our window up here." (We were on the second
floor.) "But his head would be too wide to fit in the
window." Everything he read to me he would translate as best
he could into some reality.
We used to go to the Catskill Mountains,
a place where people from New York City would go in the summer.
The fathers would all return to New York to work during the week,
and come back only for the weekend. On weekends, my father would
take me for walks in the woods and he'd tell me about
interesting things that were going on in the woods. When the
other mothers saw this, they thought it was wonderful and that
the other fathers should take their sons for walks. They tried to
work on them but they didn't get anywhere at first. They
wanted my father to take all the kids, but he didn't want to
because he had a special relationship with me. So it ended up
that the other fathers had to take their children for walks the
next weekend.
The next Monday, when the fathers were
all back at work, we kids were playing in a field. One kid says
to me, "See that bird? What kind of bird is
that?"
I said, "I haven't the
sligthest idea what kind of bird it is."
He says, "It's a brown-thoated
thrush. Your father doesn't teach you
anything!"
But it was the opposite. He had already
taugh me: "See that bird?" he says. "It's a
Spencer's warbler."(I knew he didn't know the real
name.) "Well, in Italian, it's a Chutto
Lapittida. In Portuguese, it's a Bom da Peida. In
Chinese , it's a Chung-long-tah... You can know the
name of the bird in all the languages of the world, but when
you're finished, you'll know absolutely nothing whatever
about the bird.... So, let's look at the bird and see what
it's doing--that's what counts." (I learned
very early the difference between knowing the name of something
and knowing something.)
Na ciência, substituir o conteúdo pelo nome leva
a erros do seguinte tipo:"se a relatividade é
verdadeira, então tudo é relativo, logo, a
relatividade é relativa, não podendo ser uma
verdade absoluta" (encontrei esta pérola em um livro
de introdução à filosofia, escrito por um
padre catalão).
Física não é matemática!
Galileu nunca pretendeu dizer que a física é
matemática. Nem faria sentido, principalmente naquela
época. Isaac Newton, inventando a física
teórica, deu à matemática um novo papel na
física. Enquanto, antes dele, a linguagem
matemática tinha principalmente um papel organizador, a
partir de Newton passou a ter um poder preditivo: passa-se a usar
a matemática para investigar a totalidade das
previsões de uma teoria. No entanto, mesmo aí,
física não é matemática.
Três instrumentos de natureza não matemática
essenciais na física são a experiência e a
experiência ideal (gedanken Experiment), e a
construção de instrumentos. Na atual
concepção da ciência de Freeman Dyson, os
instrumentos (
tools ) são o elemento principal no
desencadeamento de revoluções científicas.
Assim, Galileu concebeu o
plano inclinado como instrumento
para tornar a queda livre um processo menos vertiginoso, uma
espécie de câmara lenta, permitindo o estudo
quantitativo da queda com os relógios precários da
época. Papel semelhante teve a
luneta, que lhe
permitiu exibir exemplos de seu sistema solar, ou,
contra-exemplos do sistema geocêntrico, que vinham a ser os
satélites de Jupiter, que claramente giravam em torno de
Júpiter, e não da Terra, como ditava a teoria
geocêntrica.
A medida da velocidade da luz
Talvez nunca tenha havido medida mais importante e genial do que
a que levou à descoberta, por Römer, de que a luz tem
uma velocidade finita, e à determinação de
seu valor. Römer usou, para isto, a variação
da duração dos eclipses de um satélite de
Júpiter segundo a velocidade da Terra em
relação a Júpiter. Não vou descrever
aqui os detalhes da medida porque não quero (e nem posso!)
competir com Christiaan Huygens, que a descreve magistralmente no
seu
Tratado sobre a luz (na edição
existente na biblioteca do IFUSP, da coleção
BritannicaGreat Books, o tratado está na parte
final do volume dedicado a Newton e Huygens, à
página 556). Uma descrição mais moderna, mas
que não perde a graça do ambientação
histórica, acha-se no magistral
Introduction to
Concepts and Theories in Physical Science, de Gerald Holton e
Stephen Brush. Na edição que tenho está na
página 387.
A famosa carta a Hooke
Sir Isaac Newton é costumeiramente apresentado como um
grande físico teórico, o que ele, sem dúvida
foi. O maior, e o primeiro: o inventor da física
teórica! Mas Newton foi também um soberbo
físico experimental e construtor de instrumentos. A sua
Opticks é principalmente uma
descrição de suas engenhosas experiências com
a luz; a invenção e construção dos
telescópios refletores atestam sua habilidade como
construtor de instrumentos.
Neste parágrafo descrevo uma proposta de
experiência feita por êle a Hooke, em uma famosa
carta de 28 de novembro de 1679. O que surpreende na proposta
é como ela é moderna. O que ela ensina é que
a leitura dos clássicos pode ser recompensadora mesmo para
as mentalidades mais pragmáticas e utilitárias.
Newton tinha relações tensas (eufemismo
deliberado!) com muitos de seus contemporâneos. Em
particular com Hooke. Os problemas eram quase sempre do tipo
"quem descobriu o que", ou seja, prioridades
científicas. O mundo então já era igualzinho
ao nosso. A carta em questão é resposta a uma,
conciliatória, que Hooke lhe mandara, propondo que
trabalhassem em colaboração. Passo a citar (em
azul) o notável livro de Arnol'd , Huygens &
Barrow, Newton & Hooke, (Birkhäuser Verlag), com
inserções minhas, em vermelho:
Newton respondeu muito rapidamente--em
quatro dias. Esta carta notável escrita por Newton em 28
de novembro de 1679 começa com a admissão de que
ele está abandonando a filosofia e que esteve recentemente
ocupado com outros assuntos. Aparentemente a idade estava pesando
(Newton já tinha 37 anos, e esta era a idade em que se
torna difícil interessar-se por matemática e por
outros ramos da filosofia). "Apenas ouvi falar...",
escreve Newton, "de suas hipóteses de
composição dos movimentos celestes dos
planetas...embora não haja dúvida de que são
bem conhecidas do mundo filosófico...Minha
afeição à filosofia tendo se esvaído,
.. estou quase tão pouco atento a isto como um
profissional está atento à profissão de
outro, ou um camponês está atento à
cultura..."
A palavra "filosofia", na
época, significava todas as ciências exatas. A
física era então chamada de filosofia natural. Os
outros assuntos sobre os quais Newton escreveu consistem, ao que
tudo indica, em sua paixão pela alquimia. (Aparentemente
ele não contava isso como filosofia, embora o objetivo
desta ciência fosse encontrar a pedra filosofal). Newton
possuía um grande laboratório de química
(ou, se quisermos, de alquimia) e, tendo trabalhado intensamente
entre as idades de 20 e 30 anos em matemática e
física, fazendo aí muitas coisas, estava agora
interessado em obter ouro.(Fenômeno que se mantém, mutatis
mutandis, em nossos dias: obter ouro agora é trabalhar
em Wall-Street ou equivalente, como físico ou
matemático) . Colecionou um
grande número de receitas preservadas da Idade
Média, e pretendia manufaturar ouro de acordo com as
instruções contidas nelas. Os esforços que
dedicou a isso foram significativamente maiores do que aqueles
gastos com seus trabalhos de física e matemática,
mas não obteve resultados úteis. É verdade
que Newton não esteve sempre convencido disso. Diz-se que
em seus cadernos (e ele anotava seus experimentos em detalhe,
descrevendo o que ele misturava com o que, e que resultados
obtinha, de maneira que, se obtivesse ouro por acaso, poderia
reproduzir o processo) há um trecho em que, depois de uma
detalhada descrição das ações
realizadas, ele comenta o resultado: "Fedor terrível.
Parece que estou perto."
O problema dos corpos em queda.
Depois de dizer que está muito velho para a pesquisa,
Newton propõe a Hooke uma experiência para
determinar se, como dizia Copérnico, a Terra está
em movimento não só em redor do Sol, mas
também em redor de si mesma. Voltemos a Arnol'd:
De fato, de acordo com os
princípios da invariância de Galileu, é
impossível descobrir um movimento retilíneo
uniforme, por si só, mas, em princípio, uma
rotação pode ser observada (
sem comparar com outro corpo, isto é). Por isso,
diz Newton, afim de convencer aqueles que não acreditam na
teoria de Copérnico (que a Igreja Católica, por
exemplo, iria reconhecer só em 1837) é
necessário testá-la experimentalmente.
Aparentemente Newton foi o primeiro a se pôr o problema de
uma verificação experimental da
rotação da Terra. Além disso, ao propor o
problema a Hooke, Newton sugeriu um método que, em
princípio, tornaria possível
fazê-la.
A idéia é a seguinte: suponha um mastro vertical
alto, e duas esferas, uma a uma pequena altura, a outra no
tôpo do mastro. Para simplificar, o mastro está no
equador. Por causa da rotação da Terra, ambas as
esferas têm a mesma velocidade angular, que é a da
Terra. Mas as velocidades tangenciais são diferentes, para
as duas esferas: a do alto terá uma velocidade tangencial
maior. Como, pela inércia, essa velocidade se
mantém inalterada, a esfera do tôpo vai atingir o
chão mais à frente do mastro do que a esfera de
baixo. Então, para comprovar a rotação,
basta verificar este fato. No entanto, para as alturas de que se
dispõe, a diferença é mínima, e muito
difícil de detetar. Vamos ver como fazê-lo.
A experiência
Na realidade, basta verificar se uma esfera que cai sem ser
disturbada cai na vertical ou "adiante" dela (a
experiência dá resultado nulo nos pólos, e
máximo no equador). Newton propôs a Hooke a seguinte
técnica: coloca-se sob a esfera, bem centrada, uma cunha
(ele diz "a steel"). A esfera, ao cair, irá para
um lado ou outro da cunha. Se a Terra gira, ela deverá
cair para um dos lados, aquele que corresponde ao sentido da
rotação. Contudo, o efeito é muito pequeno,
para as alturas disponíveis. A idéia de Newton,
muito moderna, é usar um grande número de esferas
(ou um grande número de quedas da mesma esfera) e contar
quantas vezes ela cai para cada lado da cunha. Se o número
for o mesmo, dentro da precisão consentida pela
estatística, a Terra está parada. Se ela gira, a
esfera cairá mais vezes para um lado do que para o outro.
Acredito que esta tenha sido a primeira vez que a
estatística tenha sido usada para "amplificar"
um efeito muito pequeno.
A experiência foi realizada por Hooke, com resultado
positivo. Ele estava muito bem aparelhado para fazê-la,
pois era empregado da Royal Society com a função
de, semanalmente, realizar, para os membros,
demonstrações experimentais de fenômenos
recentemente descobertos, por ele ou por outros. Foi uma
experiência muito importante, e o resultado foi claro.
Podemos, assim, dizer que a primeira demonstração
absoluta da rotação da Terra foi realizada, em
colaboração, por Newton e Hooke. Mas sua
colaboração terminou aí. Logo depois
voltaram a brigar...
Einstein e a velocidade da luz
Passemos agora às experiências ideais. Einstein foi
o grande mestre nesta arte. Embora a sua experiência ideal
mais famosa seja a do "elevador de Einstein", que
ensina como construir sistemas de referência inerciais (e
muitas outras coisas importantes, como o "princípio
de equivalência"), a que mais me impressiona é
aquela em que se imagina acompanhando, com igual velocidade, uma
onda de luz. O que, então, "veria"? Um campo
eletromagnético com as seguintes propriedades:
estático (pois, movendo-se com ele, elimina sua
dependência temporal) e variável com a
posição: uma senóide (por exemplo), com
amplitude decaindo com a distância na forma 1/r. Ora,
não existem soluções da
equações de Maxwell com essas propriedades: as
soluções da equação de Maxwell com
dependência 1/r são necessariamente dependentes do
tempo. Logo, há algum problema em se viajar à
velocidade da luz. A partir desta observação
já se sabe onde chegou...
Este é um grande exemplo da extraordinária
intuição de Einstein, sua arma principal. Ao
contrário do que se costuma dizer, Einstein não era
um bom matemático. Disse Hilbert "Qualquer escolar de
Göttingen sabe mais geometria riemanniana do que Einstein,
no entanto, sua fina intuição o levou a construir,
antes dos especialistas, uma teoria cuja formulação
dependia fortemente da geometria riemanniana". Hilbert sabia
o que dizia, pois Einstein não bateu, na
competição em busca da Relatividade Geral, algum
escolar de Göttingen, mas o grande mestre, o próprio
Hilbert!
Matemáticos e matemáticos.
Há matemáticos e matemáticos. O grande
Riemann interessava-se muitíssimo por física, e
até, em seu teorema mais famoso, o teorema da
representação conforme, utilizou-se, em um certo
ponto, de um argumento de física, para cobrir um
"gap" da demonstração. E há
matemáticos que não têm qualquer interesse
pelas aplicações, em física ou fora dela. Um
exemplo conhecido é Godfrey Hardy, o grande analista
inglês. O caso mais extremo é o de Paul Erdös.
Este realmente viveu só para a matemática. Fora
dois ou três empregos temporários, jamais teve
qualquer posição fixa em uma universidade. Na
verdade, na maior parte de sua vida, não teve sequer
endereço. Vivia de dar seminários, e se hospedava
então na casa de quem o convidava. Não admitia
distrações à pesquisa. Publicou cerca de
1500 trabalhos, tantos e com tantos colaboradores, que se
inventou o "numero Erdös" de cada
matemático: quem publicou um trabalho com Erdös tem
número 1, aquele que não publicou com Erdös,
mas publicou com quem tem número Erdös 0, tem
número Erdös 1, e assim por diante. Aqui na USP temos
pelo menos um matemático com número Erdös
diferente de zero: o professor Yoshiharu Kohayakawa, mais
conhecido como Yoshi possui número Erd\"os 1.
"The unreasonable effectiveness of mathematics in the
physical science "
No entanto, a matemática é instrumento
poderosíssimo na pesquisa física. É o sexto
sentido dos homens, e o sétimo das mulheres.
A frase que encabeça este parágrafo é
originária de Einstein, em uma comunicação
para a Academia Prussiana de Ciências.
"Neste ponto um enigma se apresenta
que, em todas as idades, agitou as mentes inquiridoras. Como
é possível que a matemática, sendo afinal um
produto do pensamento humano, que é independente da
experiência, seja tão admiravelmente apropriada para
os objetos da realidade? Será que a razãohumana
é, sem recurso à experiência, meramente pelo
pensamento, capaz de sondar ("fathom") as propriedades
das coisas reais?
Em minha opinião a resposta a esta pergunta é, em
poucas palavras: na medida em que as leis da matemática
referem-se à realidade, elas não são exatas;
e, na medida em que elas são exatas, não se referem
à realidade."
A esta altura convém contrapor o famoso
artigo de Wigner, intitulado quase como este
parágrafo, à opinião de Einstein. E,
já que estamos com a mão na massa, convém
olhar a visão de um grande engenheiro, R. W. Hamming,
sobre o
mesmo assunto. E, para terminar, nada melhor do que as
palavras sensatas de Dirac,
no prefácio de seu
Principles of Quantum Mechanics
:
A book on the new physics, if not purely
descriptive of experimental work, must be essentially
mathematical. All the same the mathematics is only a tool and one
should learn to hold the physical ideas in one's mind without
reference to the mathematical form.
Obrigado.
Created on april 13, 2002